O mundo não vai se adaptar a você
- Letícia de Andrade Rodrigues
- 23 de nov. de 2022
- 3 min de leitura
Atualizado: 24 de nov. de 2022
O título se trata de uma anotação e reflexão de minha supervisão clínica. Nesses momentos de supervisão algumas situações surgem em que é possível perceber certas idealizações no contexto da clínica, entre elas, a ilusão de que o mundo tem que se adaptar às nossas necessidades variadas.
Como parte do trabalho de uma psicóloga, treinamos nossa escuta e nos desenvolvemos numa base teórica que nos guia na prática clínica, estudamos as demandas que surgem e trabalhamos nossas próprias demandas afim de não deixar que elas interfiram no Setting terapêutico.
Geralmente a psicóloga está amparada pelos seus estudos e pessoas que auxiliam em seu desenvolvimento profissional. Porém, o contato com o indivíduo em psicoterapia é sempre "One-on-one", o que permite um diálogo aberto e um sentimento de que a profissional está ali para ampará-lo.

Não é raro ter sentimentos oscilantes de conforto e desconforto, validação e depreciação, conexão e desconexão. Então a psicoterapia pode se tornar um momento de amparo, desabafo, de revelações, percepções do mundo e da vida pessoal. Cria-se uma relação terapêutica em que você sente-se a vontade para explorar diferentes aspectos da vida.
Porém, fazer psicoterapia exige certo protagonismo, algumas pessoas tendem a se queixar do mundo, dos outros, de sua falta de sorte na vida e de como as coisas não saem como o esperado. No entanto, a postura diante desses percalços é passiva, irrealista e fantasiosa.
Esse tipo de demanda aparece em apontamentos, sutis ou não, que envolvem nossos desejos e expectativas. Por exemplo:
Uma pessoa decide se aventurar numa vida nova em outra cidade ou país com seu par afetivo, chegando na nova moradia se depara com situações que fogem de seu controle, aí vem a frustração e queixas muito bem distribuídas aos outros.
A pessoa sofre com a falta de empatia dos moradores locais, das pessoas que trabalham em comércios, da família que dificulta o processo de adaptação, do relacionamento que sofre alteração com a nova dinâmica de vida.
A pessoa se vê numa posição de vítima, a postura é de constantes queixas que, decorrente do impactante choque cultural vivido, a paralisam. Afinal, como ela vai resolver tudo isso se são os outros que não estão colaborando?!
O primeiro apontamento seria a validação desses sentimentos, pois sim, existe uma dor que precisa ser ouvida sem julgamentos. Compreendendo de onde vem esses sentimentos, a próxima etapa é aceitar que a vida não vai se adaptar às necessidades individuais.
A jornada é diferente daquilo que foi imaginado, é necessário compreender que enquanto você busca sua individualidade, também é preciso se adaptar ao mundo, a cultura que está vivenciando, as circunstâncias e as pessoas que convivem com você.
Outro exemplo que posso trazer, um pouco mais abrangente, seria a idealização que se faz em relacionamentos, aquilo que desejamos que nossos pais sejam para nós, uma expectativa relacionada ao nosso casamento ou aos nossos amigos.
As queixas nesse sentido envolvem uma idealização onde um desejo pessoal é atribuído como responsabilidade do outro realizá-lo. Como quando a pessoa quer conhecer um lugar novo, mas o parceiro ou parceira não tem o mesmo interesse, aí a pessoa se frustra e deixa esse plano de lado alegando falta de interesse do outro em satisfazê-la.
É importante lembrar que, embora sua percepção seja sempre individual, a sua relação com o mundo é coletiva e, assim como você, as pessoas também podem depositar em ti expectativas que não são sua responsabilidade.
Saber separar o que é seu e o que é do outro é uma tarefa complexa, que precisa de atenção e cuidado, para que você não espere que a outra pessoa cumpra aquilo que é de sua responsabilidade pessoal e nem que você se veja numa situação complicada tendo que fazer a caminhada de outra pessoa.

Pense com carinho em quais atribuições que deveriam ser suas e que você está depositando em alguém. Entenda que a sua vontade é SUA. Lembre que todos possuem feridas emocionais e podem se paralisar diante de algumas situações, entendê-las e tratá-las é o caminho adequado para sua saúde mental. Se dedique ao seu autoconhecimento.
É ilusório imaginar que o homem possa dominar e controlar a natureza, se ele não foi ainda capaz de controlar e enxergar a sua própria natureza.
Carl Gustav Jung
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por Letícia de Andrade Rodrigues
Psicóloga Clínica de Orientação Junguiana
CRP 08/19065
PSICOTERAPIA ON-LINE INDIVIDUAL




Vivenciei muito isso em todas as mudanças, em constante evolução.